Sou filha de emigrantes portugueses, nascida em França. Como todos os anos, esperei ansiosamente o principio das férias de verão com uma unica vontade: regressar ao meu querido e tão amado Portugal... Aquele Portugal de cujo oiço falar e conheço desde a minha infancia. Para um emigrante o que significa voltar? Significa matar aquelas saudades todas da familia, dos amigos,... Voltar a ver as nossas casas, aqueles cafés cheios de convivencia, aquela rua, aquela esquina, aquele perfume, aqueles caminhos, aquelas paisagens, todas estas imagens que guardamos no nosso coração para o ano todo... Significa regressar às nossas raizes... A nossa vida é bem diferente daquilo que a maioria das pessoas imaginam. Quer estejamos na França, na Suiça, na Alemanha, é quase sempre tudo igual. Quem entrar nas nossas casas, jà não està na França, na Suiça ou na Alemanha, està pura e simplesmente em Portugal. Todas as manhãs, ao sair de casa, passamos esta fronteira que criamos.
Sou filha de emigrantes portugueses e vivo em França. Isso não significa que não falo português com os meus pais, que não como bacalhau com batatas ou chouriço e presunto ou que não sei quem anda primeiro na superliga! Não passa um dia sem eu pensar no meu paìs... Até chego a viver em Portugal por procuração, conversando com amigos ou familiares de Portugal, é uma maneira de viver um pouco em Portugal...
Sou filha de emigrantes portugueses, o que significa que pertenço àquele grupo chamado pejorativamente "aveques", que segundo a maioria das pessoas, vêm desdo o mês de julho invadir o paìs até o fim do mês de agosto. Somos aqueles "aveques que chegam a Portugal e que pensam que tudo é deles" e que "passam o mês inteiro sem fazer nada". Admito que é verdade, não trabalhamos durante este mês de férias... Arranjamos as nossas casas, aproveitamos as unicas férias e sobretudo, tempo livre que não temos durante o ano inteiro, e matamos saudades das pessoas amadas. Para muitos, isso é não fazer nada, mas para nos, isso é fazer tudo! Afinal, é preciso não esquecer uma coisa importante: se um dia um português decidiu deixar o seu paìs e tornou-se emigrante, não foi com certeza de boa vontade, mas sim para sobreviver, arranjar um emprego num momento de crise, para manter sua familia dignamente. Todos os emigrantes partiram e deixaram tudo simplesmente para trabalhar. Quem vir um emigrante sem fazer nada durante umas semanas, talvez não o vê quando trabalha os outros onze meses do ano, como qualquer outro português. Alguns vivem bem, outros menos, alguns integram-se numa outra cultura, outros nunca hão de conseguir. O sonho de muitos emigrantes é regressar de vez para aquele paìs que tiveram de deixar uns anos atràs... Voltar a viver nessas casas, naqueles cafés, naquela rua, naquela esquina, naquelas paìsagens... Tornar essas imagens numa realidade.
Sou filha de emigrantes portugueses e vivo em França. Durante as férias sou a amiga francesa de passagem, e durante os outros onze meses do ano sou a amiga portuguesa. Afinal, de que nacionalidade sou? Tenho um bilhete de identitade que indica que sou francesa, e outro que indica que sou portuguesa, porque afinal é o que sou acima de tudo: Portuguesa, Portuguesa de sangue, Portuguesa no coração!...